5# INTERNACIONAL 5.2.14

SE E BOM, POR QUE  SECRETO?
Nos detalhes do emprstimo do BNDES para um porto em Cuba, protegidos por sigilo, est a resposta para saber se foi mesmo um bom negcio ou a sobrevida para a ditadura.
DUDA TEIXEIRA

     Em visita a Cuba na semana passada, a presidente Dilma Rousseff inaugurou o Porto de Mariel, reformado em sua maior parte com dinheiro brasileiro, participou de uma reunio de cpula latino-americana e teve um encontro particular com Fidel Castro, que segue mandando no pas mesmo tendo passado a bengala para o irmo Raul. Com a Venezuela reduzindo o envio de petrleo a aliados, o amparo brasileiro tornou-se essencial para a ditadura cubana. De Dilma, o enfraquecido Fidel ganhou suporte no apenas econmico como poltico. A presidente at ecoou a desculpa do "injusto embargo" dos americanos a Cuba, usada largamente pelos irmos Castro para podar os direitos de sua populao. Na tentativa de justificarem ao pblico brasileiro o emprstimo de 682 milhes de dlares do Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social (BNDES) ao porto dos gerontocratas, Dilma e seus subordinados apresentaram uma lista pronta de argumentos. Nenhum explica a razo da confidencialidade do acordo entre governos. 
     Uma das condies do emprstimo concedido pelo BNDES  que a ditadura s poderia gast-lo na compra de bens e servios brasileiros. Os capacetes de proteo, o cimento e at um carro Gol foram levados do Brasil. A maior parte das exportaes foram servios. Os projetos de engenharia, por exemplo, foram traados por escritrios brasileiros. Dos 233 milhes de dlares exportados para a ilha no ano passado para atender  obra, 201 milhes de dlares foram em servios. O governo diz que 156.000 empregos foram gerados no Brasil. Tudo muito bonito, no fosse o alto risco de calote. O Brasil aceitou conceder o emprstimo ancorado em garantia soberana, balizada pelos bancos centrais. Essa modalidade  segura quando h um mecanismo de compensao de exportaes entre os pases, o que no ocorre com Cuba. 
     O argumento do governo federal de que a modernizao do porto caribenho ajudou a economia brasileira no se sustenta no campo do pensamento lgico. Se investir em uma ilha do Caribe submetida h mais de meio sculo a uma ditadura comunista tem efeito positivo na economia no Brasil, imagine, ento, os ganhos se o dinheiro do contribuinte brasileiro tivesse sido investido diretamente na melhoria dos atulhados e obsoletos portos do Brasil.  difcil para Braslia explicitar os motivos reais da generosidade na reforma do Porto de Mariel. O que a indigente economia cubana tem para exportar que justifica o investimento brasileiro? Nada. O Porto de Mariel ficou mundialmente conhecido em 1980 pela exportao em massa de... gente. Em apenas duas semanas cerca de 125.000 cubanos escaparam da ditadura castrista, que, pressionada pela misria, suspendeu a proibio de abandonar o pas. O episdio ficou conhecido como o xodo de Mariel. 
     Na impossibilidade de justificar o emprstimo a Cuba, a sada para o governo brasileiro foi classific-lo como "secreto". Os detalhes do projeto, portanto, s podero ser conhecidos em 2027, dois anos antes do prazo final para Cuba quitar a dvida.  estranho que os negcios do governo do PT com Cuba e tambm com Angola sejam fechados em segredo. Nem o Congresso Nacional tem acesso aos termos dessas transaes. Dessa forma, at que esse contedo seja exposto  luz do sol, os brasileiros tm todo o direito de desconfiar das intenes desses projetos. Tm todo o  direito de achar, por exemplo, que o que o Brasil fez foi simplesmente uma doao aos irmos Castro. Ou coisa pior. "Os tcnicos do BNDES trabalham bem e so meticulosos com as garantias, mas, no final, o banco faz o que o governo manda", diz Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada (Ipea). O Ministrio do Desenvolvimento informa que o sigilo estava previsto no protocolo de entendimento assinado entre Brasil e Cuba  e s. 
     Propagou-se tambm a verso de que o porto cubano ser til s empresas brasileiras com a criao de uma zona especial de desenvolvimento (ZED). A construo dessa rea industrial demanda um novo financiamento do BNDES, de 290 milhes de dlares. Diz o professor Srgio Lazzarini, da escola de negcios Insper: " difcil perceber qual seria o interesse brasileiro no projeto. Os chineses fazem portos na frica porque cobiam as matrias-primas locais. Qual ser o objetivo do Brasil em um mercado insignificante como o de Cuba?". Dilma falou que h vrias empresas nacionais interessadas em se instalar na ZED, mas a Agncia Brasileira de Promoo de Exportaes (Apex) no  capaz de citar uma nica sequer.  arriscado instalar fbricas em Cuba, pas que desconhece os conceitos de propriedade privada, lucro e respeito a contratos. Os defensores do investimento em Mariel acreditam que fixar bandeira agora colocar o Brasil em posio privilegiada quando a economia cubana se abrir. Por esse ngulo tambm pode ter sido um tiro no p, como prev o historiador cubano Manuel Cuesta Mora: "O modelo de Mariel dar flego novo  ditadura porque continuar impedindo o nascimento de um empresariado nacional, ao mesmo tempo que permitir o enriquecimento ainda maior dos militares". No se sustenta, ainda, a tese de que o porto se pagaria servindo de entreposto logstico, onde os grandes navios redistribuiriam sua carga para embarcaes menores. "Se isso ocorrer, o Brasil ter favorecido os exportadores chineses", diz Wilen Manteli, presidente da Associao Brasileira dos Terminais Porturios (ABTP). At que o segredo sobre o projeto seja aberto, a melhor explicao  que se trata de um novo PAC: Programa de Amparo a Cuba.


